quinta-feira, 26 de novembro de 2009

ainda sem título

1ª parte

Em frente do monumento à pessoas mortas observo o vazio.
Procuro uma personagem para me exprimir nesta cidade ideal.

Aqui os pássaros cantam chorando e eu observo alguns anciãos que passam por mim sem me ver.

Duas musas se abraçam e se envolvem em uma dança giratória e vertiginosa. Seus pés quase não tocam o chão e suas vozes são murmúrios... pequenos murmúrios nesta imensa floresta nave (essa palavra se intrometeu por aqui sem eu pedir. Ela veio e ficou assim... “sonou” assim. Deixei que ficasse... me faz algum sentido).

Um dos anciãos passa por mim. Ele é altamente corcunda e se apóia em uma bengala quase de seu tamanho, segura um buquê colorido de flores na outra mão. Ele me cumprimenta e eu me surpreendo de ter sido visto.
Ele caminha lentamente e vai sumindo do meu campo de visão.

Observo as sombras do monumento como se fizesse parte de uma fotografia preta e branca.

As folhas do outono voam.

Uma gata siamesa prenha aparece e me olha. Resolvo segui-la e me deslocar do lugar de onde a tanto tempo parado eu esperava. A gata arisca foge. Resolvo procurar por ela como se a gata pudesse me levar para o lugar que há tanto tempo busco. Nada de gata. O vazio do meu estômago me lembra que há algum tempo não como.
As folhas de outono voam e percebo alguns mausoléus abandonados a minha volta. Folhas secas pelo chão, uma sonata outonal em meu ouvido... Ao longe mais dois anciãos se aproximam de mim, mas não me percebem. Me sinto vazio e meu estômago ronrona.

Longa pausa.
longa pausa num tempo que eu desconheço, e que faz de mim algo insignificante.

Ao olhar para trás, três gatos sentados em fileira me olham. A gata siamesa prenha é um deles. Um dos gatos, preto, mia e sai correndo, o outro, também preto, porém com uma mancha branca na boca se lava.


Resolvo voltar para o lugar onde estava desde o começo ao observar o monumento morto aos mortos.

 Sento.
Um barulho nos arbustos que estão atrás de mim, olho e vejo por entre os galhos secos um dos gatos que me observa; parece cuidar de mim.

As folhas continuam voando nesta pausa do tempo. As folhas continuam voando com este vento pesado. Um vento que traz vozes de longe e o som do sino de alguma igreja velha que talvez esteja caindo aos pedaços.
A cidade está abandonada talvez, mas eu espero ser levado para lá.

Sentado no banco eu não me sinto muito confortável, mas sei que é preciso ter paciência.

Quantos passos levo para chegar até o outro lado destas ruínas? Quantos passos levo para ficar esperando sentado?
Levanto e conto. Os gatos me acompanham onde quer que eu vá, sem que eu realmente perceba. Durante meu percurso, não os vejo ao meu lado, mas se dou uma pausa eles reaparecem. Agora o preto com a mancha branca está atrás de uma árvore.

Um comentário:

  1. e nós, aqui, também compartilhando do mesmo sileêncio, aguardamos os proximos capítulos!

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